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Quinta-feira, 8 de Agosto de 2013

Dois países, um sistema

A reunião tinha começado à hora marcada, o que na Argélia é sempre motivo de enorme satisfação. Passámos em revista todos os pontos: condições, quantidades, documentos obrigatórios, certificados. Tudo em ordem.

 

-"Então e ‘timings'? Qual a data prevista de chegada dos produtos ao porto de Argel?"

 

- "Essa é, agora, a parte mais complicada! Estão em greve no Porto de Lisboa e ninguém se consegue comprometer com prazos!" - respondo eu, não conseguindo esconder o incómodo por esta situação. Tinham sido meses de trabalho e negociações que agora chegavam ao seu termo. Mas esta questão dos ‘timings' poderia deitar tudo a perder.

 

O importador, com um ar algo estupefacto, pergunta-me então - "Mas vocês não estão em crise? Não precisam de aumentar as vossas exportações para dinamizar a vossa economia e os vossos sectores produtivos? E põem-se a fazer greve nos Portos?".

Para perguntas simples muitas vezes não há uma reposta dotada da mesma simplicidade.

 

Até porque, ao olharmos para o Portugal de hoje, vemos que existem claramente dois países.

 

De um lado, o país que produz, que tenta gerar riqueza, que se esforça por ir à conquista de novos mercados. As empresas que iniciaram o caminho da internacionalização, algumas delas já há muito tempo, e que têm conseguido, num quadro extremamente difícil e competitivo, vender os seus produtos e serviços, são uma das faces deste Portugal.

Os recentes indicadores respeitantes às exportações e ao saldo da balança comercial são a prova do dinamismo e da capacidade de reposta que a economia portuguesa, apesar de tudo, tem conseguido dar.

O caso da Argélia tem sido, aliás, um bom exemplo desta realidade, com um crescimento das nossas exportações na ordem dos 100% entre 2009 e 2012. Quer seja nos produtos agro-alimentares, quer seja nos materiais de construção, ou no ‘know-how' em diferentes sectores como o dos sistemas de informação, ou o da elaboração de projectos, a marca Portugal continua a ser sinónimo de qualidade e confiança, contribuindo decisivamente para o desenvolvimento das relações económicas e a concretização de parcerias estratégicas entre empresas portuguesas e argelinas, como recentemente foi anunciado no âmbito da produção de detergentes ou da construção metálica.

 

No entanto, de há uns tempos a esta parte, tem sido outro o Portugal que parece prevalecer. O Portugal que, em muito menos tempo, e com muito menos esforço, se deu a conhecer, por maus motivos, além-fronteiras.

 

Falo do Portugal estatista e falido. Do Estado que foi obrigado a solicitar ajuda e financiamento internacionais para poder fazer face aos seus compromissos.

 

Falo de um Estado despesista, ineficiente, muitas vezes mergulhado em teias de interesses e aprisionado num conjunto de obsoletos e irrevogáveis direitos adquiridos.

 

Um Estado gerido por uma classe política cada vez mais alheada da realidade que a elege, e onde ninguém é responsabilizado por nada. Os sucessivos escândalos que têm sido revelados ultimamente, e que em qualquer país civilizado teriam tido consequências imediatas, em Portugal caem no beneplácito de um sistema judicial que tem tanto de eficaz como de célere.

Da nacionalização do BPN ao aeroporto de Beja, das PPP aos défices crónicos e cada vez maiores das empresas públicas, terminando nos mais recentes SWAP, são vários os exemplos de uma gestão ruinosa, até danosa, da coisa pública, que conduziram à situação que conhecemos.

 

A maioria dos operadores económicos está asfixiada por impostos ou atolada em crises de tesouraria, que muitas vezes, têm na sua origem, dívidas por parte do Estado. Por outro lado, a quebra na procura interna, motivada pela redução do poder de compra à qual se juntou um clima de instabilidade e receio pelo futuro, fez o resto.

 

As viagens que tenho feito a Portugal vão mostrando uma sociedade cada vez mais cansada, nalguns casos mesmo desesperada. Lojas que não vendem, restaurantes que fecham, pequenas e médias empresas que entram em processo de insolvência, ou despedimentos colectivos em grandes grupos.

 

A comunicação social, quando não retrata esta triste realidade, fala de fraudes envolvendo dinheiros públicos, dos ‘deficits' das contas do Estado, ou das tricas políticas entre Governo, Presidente e oposição, contribuindo para o clima de depressão colectiva e alheamento em que o País entrou.

 

A coabitação destes dois países sendo impossível, é fulcral pôr um ponto final no sistema e reformar a sério o Estado. Um Estado forçosamente mais pequeno mas sobretudo mais eficiente, onde exista e se pratique o princípio da responsabilização. Um Estado que liberte meios para que as empresas se possam desenvolver e crescer. Um Estado assente em menos trabalhadores, mas conscientes das suas responsabilidades e empenhados nas suas funções.

 

Este terá que ser o ponto de partida para um novo ciclo. Por muito que custe a alguns.

 

Assim saibamos agir, os que estão dentro e os que estamos fora, pois eu tenciono um dia voltar a ver Portugal de dentro.

 

Artigo publicado no Diário Económico de hoje.

Este recado é de Rodrigo Mello Gonçalves às 12:27

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